História

46 anos de existência e resistência, em constante trânsito entre tradição e ruptura, estabelecendo uma estética própria e uma linguagem que propõe refletir o Brasil em sua complexidade social, histórica e cultural.

Oswaldo Mendes

Entrevista concedida por Marika Gidali e Décio Otero a Oswaldo Mendes

 

A Companhia do Ballet Stagium nasceu em 1971, quando Marika Gidali e Décio Otero se uniram para uma série de programas didáticos sobre as diversas vertentes da dança para a TV Cultura de São Paulo. O dia 23 de outubro de 1971 é considerado o marco inicial da Companhia.

Marika e Décio uniram suas experiências de dança e teatro e resolveram fazer dança no Brasil, com uma estética e uma linguagem próprias e absolutamente inovadoras, num cenário nacional muito pouco propício e encorajador para qualquer vertente artística. Enquanto o teatro, o cinema e a música popular eram amordaçados pela censura da ditadura militar, o Stagium recusa o colonialismo e a alienação de então, decidindo seu destino. Nos passos do Teatro Oficina, do Teatro Arena e do Cinema Novo, que não podiam se manifestar, o Stagium percorre um caminho diferente daquele que havia pautado a dança no Brasil, impondo-se como a mais gratificante experiência no gênero.

A fórmula encontrada para desenvolver e viabilizar o trabalho da Companhia foi sair da cidade de São Paulo e das grandes metrópoles. Viajando pelo Brasil, os diretores perceberam a necessidade de despojamento e coerência com a realidade em que viviam os brasileiros. A visão dessa realidade fez com que Marika e Décio questionassem seu ofício, sendo o estopim de seu compromisso com a arte em outro patamar. A consequência natural desse questionamento crítico foi a ação. Chegaram à conclusão de que a dança seria o meio pelo qual a Companhia cooperaria com a sociedade da qual faziam parte. As imagens do Brasil foram integrando as coreografias, sem, todavia, transformar-se a Companhia num grupo de dança regional ou folclórica. As coreografias falavam dos problemas brasileiros através de uma linguagem universal; falavam para a humanidade.

Através de suas criações, utilizando vertentes universais da dança com aspectos tipicamente brasileiros, o Stagium conquistou um vasto público em todo o País, até então desacostumado e muitas vezes avesso a manifestações coreográficas.

E o repertório do Stagium foi se tornando, além de artístico, social e pedagógico. As produções da Companhia foram se adaptando aos diferentes espaços, cenários e contextos possíveis: pátios de escolas públicas, favelas, cinemas, praças, hospitais, igrejas, presídios, estações de metrô, praias e rios, palcos flutuantes, chão de terra batido, desfiles de escolas de samba, entre outros.

Os locais mais inóspitos se transformaram em palco. O palco se transformou em sala de aula, quando a Companhia inovou ao realizar aula-aberta à plateia antes de cada apresentação. A sala de aula se tornou laboratório para a criação da arte.

A Companhia e a Academia funcionam, desde 1974, num grande estúdio na Rua Augusta, na cidade de São Paulo, onde desenvolvem não apenas a prática e o ensino da dança, mas um verdadeiro programa de pesquisa em várias linguagens da dança, ideias e produções inovadoras. As inovações do Ballet Stagium estenderam-se além de sua linguagem contemporânea.

O Stagium criou cursos intensivos de férias com frequência de bailarinos, estudantes e professores de todo o Brasil. Artistas de vários segmentos da cultura nacional já ministraram cursos e palestras à Companhia e aos amantes da dança:

– Maria Bonomi (artes plásticas)
– Ademar Guerra (diretor teatral)
– Maurício Kubrusly (música popular)
– Helena Katz (história da dança)
– Cássia Navas (história da dança)
– Cacilda Lanuzza (antropologia)
– Marilena Ansaldi (teatro-dança)
– Leda Alves (cultura popular)
– Paulo Herculano (música)
– Oswaldo Mendes (teatro)
– Márcio Tadeu (cenografia e figurinos)

Utilizando linóleo, ainda desconhecido no Brasil, ou no próprio chão, o Stagium mapeou todo o País com seus espetáculos e apresentações marcantes em lugares inusitados, entre os quais se destacam:

1973 – apresentação memorável sobre um palco flutuante no lago do Parque do Ibirapuera em comemoração do aniversário da cidade de São Paulo
1974 – Barca da Cultura – apresentações sobre um tablado montado no convés da Barcaça Juarez Távora, percorrendo as cidades ribeirinhas do Rio São Francisco (de Pirapora a Juazeiro), a convite de Paschoal Carlos Magno
1977 – convívio durante uma semana com os índios no Posto Leonardo, apresentando-se para 11 tribos indígenas do Alto e Baixo Xingu
1982 – apresentação no Hospital do Câncer em Carmen Prudente – SP
1983 – apresentação no hangar da Varig no Aeroporto de Congonhas em São Paulo
1990 – apresentação no Morro da Conceição em Recife – PE
1990 – apresentação no Buraco Quente da Mangueira no Rio de Janeiro – RJ
1991 – apresentação na calçada do Parque Trianon em comemoração dos 100 anos da Avenida Paulista em São Paulo
1991/2005 – apresentações no saguão do Prédio dos Ambulatórios do Hospital das Clínicas em São Paulo
1991 – apresentação em área de preservação ambiental em L’Aquila na Itália
1994 – apresentação em praça em Rio Preto da Eva, interior de Manaus – AM
1996 – apresentação no Viaduto do Chá na cidade de São Paulo
1999/2004 – apresentações nas unidades da antiga FEBEM de todo Estado de São Paulo
2002 – apresentação em presidio de segurança máxima em Campina Grande – PR
1991/2016 – apresentação em escolas públicas de São Paulo

Também se apresentou no Pantanal, na Serra Pelada, em Carajás, na Favela da Rocinha e no Largo da Carioca.

Foi a primeira companhia de ballet profissional brasileira a desfilar em escolas de samba (Padre Paulo, de Santos em 1978, e Nenê da Vila Matilde, de São Paulo em 1984 e 2000).

Quebrando tabus o Stagium manteve espetáculos de longas temporadas no mesmo teatro.

Para suas produções, o Stagium elaborou trilhas sonoras mixando músicas eruditas e populares. Vários compositores musicais criaram temas originais para o Stagium:

– Milton Nascimento (Missa dos Quilombos)
– Egberto Gismonti (Pantanal)
– Wilham Sena (O Homem do Madeiro)
– Aylton Scobar (Quebradas do Mundaréu)
– André Abujamra (Shamain)
– Marcelo Petraglia (Luminescência)
– Livio Tragtenberg (A Semana noventa@vinteedois )

O Stagium foi a primeira companhia de dança nacional a utilizar trilhas sonoras da MPB, valorizando Pixinguinha, Waldir Azevedo, Geraldo Vandré, Chico Buarque, Lamartine Babo, Ari Barroso, Lina Pesce, Cartola, Adoniran Barbos e muitos outros.

O Stagium ainda manteve e mantém até hoje diversos projetos utilizando a dança como forma de integração social, destacando-se: Dança da Serviço da Educação, Projeto Escola Aberta, Projeto Professor Criativo, Projeto Capoeira, Projeto Joaninha, Projeto Dança de Rua e Projeto Capoeira (estes dois últimos nas unidades da antiga FEBEM).

Os 46 anos de atividades são marcados pelo trabalho e dedicação dos diretores Marika Gidali e Décio Otero, além de diversos artistas e colaboradores, fazendo do Ballet Stagium o que ele é e representa hoje para a cultura nacional.


Um canto, uma dança, um país

Em 2015, o Ballet Stagium estreia “O Canto da Minha Terra”, de Décio Otero e Marika Gidali, obra em torno do universo sonoro de Ary Barroso (1903-1964), mineiro de Ubá, também cidade de Otero e da dupla de cantoras Célia & Celma, que em cena estão com a Companhia.

A estreia abre a temporada em que a Companhia festeja seus 45 anos. Tempo que merece ser celebrado, pela arte do grupo e pela dança de todos que por ela passaram em muitos de seus programas – artísticos, educativos, formativos, sociais.

Fundada em 1971, por Marika Gidali e Décio Otero, através de um projeto amplo, a apontar uma política cultural para um país, paulatinamente o grupo se transformaria numa escola “on the road”.

Dançando em toda a parte – palcos, ginásios, tribos, barcos, praças, penitenciárias, escolas – através de seus artistas, a dança se extravasa para fora da cena, desaguando em aulas, palestras, projetos educativos, programas sociais, seminários, pesquisas, conversas e escuta de artistas e plateias.

No Stagium, o palco se transforma em sala de aula, em que conteúdos artísticos de muitos tempos, se apresentam em forma de dança. E, de fato, durante muito tempo, este palco seria usado como estúdio onde, à frente da plateia, os bailarinos seguiriam uma aula anterior a cada récita.

Por outro lado, a sala de aula sempre seria um lugar de arte, posto que espaço para a sua construção e não somente local de treinamento de intérpretes em busca de performance individual.

Em 2015, a sala de aula do Stagium segue sendo um moderno laboratório para a criação da arte, a dança se urdindo a partir de uma dramaturgia que subjaz a um país – sua história, seus personagens, sua vida e suas canções.

Nesta experimentação, Otero e Gidali se lançam na tarefa de dar a conhecer uma terra, a MPB sendo desbravada como uma floresta tropical por onde ecoa poesia transformada em música, a respirar através da dança, que, por sua vez, respira por entre as canções.

Em grande parte das obras, que remontam a mais de 70 estreias, pela arte do Stagium, somos colocados em átrios sonoros de nossos choros, valsas, serestas, modinhas, batucadas, e ainda em naves formadas por sonoridades do Alto Xingu, como em “Kuarup, ou a questão do índio” (1977), que pode ser considerada a “sagração da primavera” da dança deste País. Mais recentemente, imersos estamos nas câmeras de ressonância das canções de Tom Jobim, Chico Buarque, Quinteto Violado, Luiz Gonzaga, Adoniram Barbosa e, em 2015, de Ary Barroso, neste canto de uma terra.

Na modernidade, transformar a dança para o tempo atual – época percorrida por questões partilhadas entre muitos – pressupõe intertextualidades com o teatro, música, cinema, literatura e novas mídias de criadores de um tempo moderno.

Neste contexto, o território de fronteira entre dança e texto verbal sempre foi lugar da criação do Stagium, com o tempo consolidado no desafio de nos traduzir. Para as plateias, este também será um dos desafios de “O Canto da Minha Terra”.

Envolvidos pela obra de Ary Barroso, também autor de um dos hinos afetivos do País – a Aquarela do Brasil -, sigamos o que estes bailarinos querem nos dizer/expressar/apresentar/representar em dinâmicas que vêm de outras coreografias do grupo e naquelas em que criadores ainda se despojam de sua escrita para tentar experiências distantes de muitas das restrições de uma dança contemporânea a toda prova ou “até prova em contrário”.

Tendo dançado em todos os cantos de nossa terra, o Stagium dança-e-canta o pedaço da terra de Décio Otero. Uma oportunidade rara para se pensar nas trajetórias dos criadores da dança do Brasil, com quem temos o privilégio da convivência em mesmo tempo histórico.

(texto de Cássia Navas, de setembro de 2015, em comemoração dos 45 anos do Ballet Stagium)